Entrevista: Diogo Perestrelo, da PLMJ, discute o mercado de M&A em Portugal

Diogo Perestrelo, é socio da PLMJ. Os principais projectos em que prestou assessoria jurídica durante os últimos anos incluíram fusões e aquisições em diversos sectores, entre os quais, transportes, infra-estruturas e energia bem como operações de private equity, designadamente MBOs, MBIs e buy & build. Também participou na assessoria jurídica, desde o seu início em Portugal, de diversos Project Finance nas áreas das concessões rodoviárias, energias renováveis, águas e telecomunicações.

TTR: Como descreveria a performance do mercado português de M&A desde o início de 2017 até agora? 

Diogo Perestrelo: O mercado português de M&A tem tido uma performance que se caracteriza essencialmente por operações de M&A dito “tradicional”, e, em menor escala, operações de private equity. Parte significativa dessas operações decorre de uma clara estratégia de desinvestimento em ativos não essenciais ou ativos de risco, e visa consolidar as condições financeiras de instituições bancárias, fundos e empresas em geral.

Temos também assistido a operações de M&A de outra natureza, envolvendo outro tipo de investidores, com vocação e objetivos distintos, de que é exemplo a aquisição, pelo fundo Ardian, o maior fundo de infraestruturas europeu, da Ascendi – o segundo maior grupo de concessões de autoestradas português. O que demonstra bem que o mercado português permaneceu ativo, também no contexto de investimentos com objetivos de longo prazo.

TTR: No que diz respeito aos investimentos estrangeiros realizados em empresas portuguesas, os que mais se destacam são as empresas cujas sedes estão localizadas na Espanha, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Quais características das empresas portuguesas o senhor acredita atrair o interesse dos investidores estrangeiros?

Diogo Perestrelo: Creio que o crescente interesse no investimento em empresas portuguesas não decorre tanto das características das empresas portuguesas per si, mas sim dos setores económicos em que estas operam. Seja no domínio do turismo, das áreas tecnológicas, da energia renovável, são setores em franca expansão ou consolidação, nos quais as nossas empresas beneficiam de uma ampla e reconhecida experiência. Uma palavra também para o programa Startup Portugal, que impulsionou e reforçou a capacidade de afirmação internacional das empresas portuguesas. A realização da Web Summit em Lisboa também permitiu e continuar a dar frutos e visibilidade ao mercado das start-ups e das tecnológicas portuguesas.

É gratificante, como advogado português, constar que cada vez mais, em contextos profissionais internacionais, as questões que me colocam incidem sobre setores preferenciais para investir e as oportunidades disponíveis, e não (já), como acontecia há uns anos atrás, sobre a situação do País na sequência da intervenção da Troika.

TTR: Qual tendência destacaria como a que trouxe os melhores resultados em termos estratégicos para as empresas portuguesas? Quais políticas adotadas podem ser fatores de influência para estimular os investimentos? 

DP: As decisões de investimento empresarial dependem de vários fatores. Para além dos aspetos de política macroeconómica e do quadro orçamental e fiscal, há dimensões do quotidiano das empresas que contextualizam o investimento e que o influenciam. Por exemplo, obstáculos regulamentares, as qualificações dos trabalhadores, a capacidade de selecionar bons projetos, a possibilidade de utilizar novos instrumentos financeiros para financiar os melhores projetos. Qualquer política que favoreça estes aspetos vai certamente contribuir para incrementar o investimento. Mas se tivesse que citar um fator apenas, diria que a estabilidade do enquadramento fiscal é crítico para um investidor internacional.

Foi recentemente publicado o diploma através do qual se cria o Fundo de Coinvestimento 200M, que visa fomentar a constituição ou capitalização de empresas, nomeadamente na fase de arranque, e promover o capital de risco. Ainda é cedo para avaliar os resultados práticos das medidas previstas neste diploma, mas estamos convictos de que serão um importante instrumento para reforçar a atividade e o investimento empresarial.

TTR: O Setor Imobiliário vem sendo o motor das transações de M&A no mercado Português, uma tendência que se mantem desde 2015. Quais são as perspetivas de crescimento desse setor para o próximo ano? Acha que pode haver uma saturação do mercado?

DP: O mais provável é que essa tendência perdure por mais alguns anos, embora se espere algum abrandamento nos preços dos imóveis. Há segmentos deste mercado que ainda não revelaram todo o seu potencial. Assim, o setor imobiliário tem margem para crescer, seja através da implementação de novas oportunidades de negócio em parceria com proprietários de prédios devolutos ou subocupados nos centros urbanos, seja pela via de estratégias integradas com o setor do turismo, promovendo as diferentes regiões nacionais e consolidar a descentralização na procura turística. Recorde-se que continuamos a assistir a um crescimento significativo no setor do turismo – os dados oficiais confirmam que Portugal nunca recebeu tantos turistas como no ano passado e que este setor provavelmente continuará em ascensão.

Portugal é um país pequeno com infraestruturas de telecomunicações e rodoviárias ao nível do melhor que há no mundo e o interior do País e isso faz com que novas zonas do País fora dos grandes centros urbanos e mesmo no interior possam ser objeto de desenvolvimento imobiliário.

TTR: Houve um aumento no interesse de investidores de Private Equity e Venture Capital olhando para Portugal. Do seu ponto de vista, as empresas portuguesas têm tido sucesso ao buscar esses investimentos? Quais são as estratégias que estão sendo favorecidas pelas empresas para atrair essas modalidades de investimentos? 

DP: O acesso a capital de risco é, efetivamente, uma opção para as empresas portuguesas, sejam elas startups,sejam empresas já com algum grau de maturidade.  Em traços gerais, o investidor tem a expectativa de aceder a projetos inovadores em mercados com potencialidade de crescimento e beneficiar de equipas com elevado grau de complementaridade, detentoras de profundo conhecimento da área de negócio.

O investimento de private equity e venture capital tem sido um caso de sucesso no nosso País. As empresas perceberam que um dos fatores mais relevantes para a captação deste tipo de investimento é a capacidade de reunir uma equipa de qualidade, com capacidade de identificar problemas, desenhar soluções e promover a sua execução, de uma forma eficiente. Naturalmente que outro fator essencial é a existência de um modelo de negócio, com acesso a canais de distribuição flexíveis, que permitam alcançar dimensões relevantes, com o mínimo capital possível.

Talvez a estratégia das empresas para atraírem esta modalidade de investimento assente nestes dois pilares: equipas capazes e modelos de negócio inovadores e eficientes.

TTR: Qual sua expectativa para o último trimestre do ano?

DP: Podemos antecipar um aumento nas fusões e aquisições no setor financeiro, mantendo-se a tendência de venda de ativos por bancos e instituições financeiras, essencialmente ativos não estratégicos ou os designados ativos de risco. Esta foi uma tendência importante em 2017, que nos parece poder continuar até ao final do ano.

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ENGLISH

Diogo Perestrelo, is a partner at PLMJ. The main projects on which he has advised in recent years include mergers and acquisitions in the transport, infrastructures and energy sectors, as well as private equity transactions, particularly MBOs, MBIs and buy-and-build transactions. 
He has been involved in project finance since it became popular in Portugal, having participated in several project finance transactions in areas such as road concessions, renewable energies, waters and telecommunications.

TTR: How would you describe the performance of the Portuguese M&A market from the beginning of 2017 until now? 

Diogo Perestrelo: The performance of the Portuguese M&A market is essentially characterised by “traditional” M&A transactions and, to a lesser degree, by private equity deals. A significant number of these operations arise from a clear strategy to disinvest in non-core assets or risky assets, and they are intended to consolidate the financial situations of banking institutions, funds and companies in general.

We have also witnessed other types of M&A operations involving a different type of investor, with differing locations and objectives. One example of this is the acquisition by the fund Ardian – which is Europe’s largest infrastructure fund – of Ascendi, the second largest Portuguese motorway concessions group. This clearly demonstrates that the Portuguese market has remained active, including in the context of investments with long-term objectives.

TTR: When it comes to foreign investments made in Portuguese companies, the ones that stand out most are those made by companies with headquarters in Spain, the United States and the United Kingdom. What characteristics of Portuguese companies do you think attracts the interest of foreign investors?

DP: I believe the growing interest in investment in Portuguese companies does not come so much from the characteristics of the Portuguese companies per se, but rather from the economic sectors they operate in. Tourism, technology and renewable energy are all sectors enjoying healthy expansion or consolidation, and Portuguese companies in these sectors benefit from broad and well-recognised experience. I would also mention the Startup Portugal programme, which has boosted and strengthened the international standing of Portuguese companies. Holding the Web Summit in Lisbon has also continued to bear fruit and bring greater visibility to the start-up market in Portugal and to Portuguese technology.

As a Portuguese lawyer, it is a source of great satisfaction to me to be greeted increasingly, in international professional contacts, with questions on the preferred sectors for investment and on the opportunities that are available. This is a welcome contrast with the questions I used to face the few years ago about the situation of the country in the wake of the intervention by the Troika.

TTR: Which trend would you highlight that has brought the best results in strategic terms for Portuguese companies? Which of the policies adopted may be influencing factors that stimulate investments? 

DP: Business investment decisions depend on various factors. Besides macroeconomic policy issues and the budgetary and tax framework, there are aspects of the day-to-day running of companies that contextualise and influence investment. For example, regulatory obstacles, workers’ qualifications, the capacity to select good projects, and the possibility to use new financial instruments to finance the best projects. Any policy that improves these issues will undoubtedly contribute to increasing investment, but if I had to quote just one factor, I would say that the stability of the tax framework is critical to international investors.

A piece of legislation was recently published that creates the 200M Coinvestment Fund. The aim of this new legislation is to create or capitalise companies, particularly in the start-up phase, and to promote venture capital. It is still too early to assess the practical results of the measures set out in this legislation, but we are convinced it will be an important tool to boost business activity and investment.

TTR: The real estate sector has been the motive behind M&A transactions in the market, and this trend has continued since 2015. What are the prospects for growth in this sector for the coming year? Do you think the country might be facing market saturation?

DP: It is very possible that this trend will last for a few more years, although we expect to see a slowdown in property price increases. There are segments of this market that have still not reached their full potential and this means the real estate sector still has room to grow. This growth may come either by implementing new business opportunities in partnership with the owners of vacant or under-occupied buildings in city centres, or through strategies integrated with the tourism sector that promote different regions of Portugal and consolidate decentralisation of tourism demand. We are continuing to see significant growth in the tourism sector – official data confirms that Portugal has never welcomed so many tourists as it did last year, and this sector is likely to remain on the up.

Portugal is a small country, but its telecommunication and road infrastructures are world-class. This has made it possible for new areas of the country outside the main urban centres and deep in the interior to attract real estate development.

TTR: There has been an increase in interest in Portugal on the part of private equity and venture capital investors. In your opinion, have Portuguese companies in successful seeking out these investments? What strategies do Portuguese companies favour to attract these types of investments?

DP: Access to venture capital is a real option for Portuguese companies, whether they are start-ups or companies that have already achieved some degree of maturity.

In general terms, investors can expect access to innovative projects in markets with potential for growth. They can also benefit from teams they can work with seamlessly, who have deep knowledge of the business areas they work in.

Private equity and venture capital investment has been a success case in Portugal. Companies realise that one of the most important factors to attract this type of investment is the capacity to put together a quality team with the ability to identify potential problems, then design appropriate solutions and put them into practice efficiently. Naturally, another crucial factor is the existence of a business model and access to flexible distribution channels, which allow companies to achieve significant size with the minimum capital possible.

The strategy of companies to attract these types of investments is perhaps based on two main pillars: capable teams and innovative and efficient business models.

TTR: What are your expectations for the last quarter 2017?

DP: We can expect an increase in mergers and acquisitions in the financial sector, and a continuation of the trend of sale of assets by banks and financial institutions – essentially non-core assets and risky assets. This has been a significant trend so far in 2017 and we expected to continue through the end of the year.

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